Há 45 anos, por esta hora, o movimento dos jovens capitães era já irreversível e as operações militares iam mesmo derrubar a mais longa ditadura da Europa ocidental. Em breve o povo ia invadir as ruas e abraçar a insurreição, assegurando a irreversibilidade da revolução que levou a uma Constituição democrática em 1976 que diz assim no seu preâmbulo: «(...) assegurar o primado do Estado de Direito democrático e de abrir caminho para uma sociedade socialista, no respeito da vontade do povo português, tendo em vista a construção de um país mais livre, mais justo e mais fraterno».
O 25 de Abril, o dia inicial e de todos os riscos, de tão impossível, foi a mais bela página do século XX português. Foi com ele que construímos um país com imperfeições, por certo, mas um país onde o filho do operário já não vai combater para as ex-colónias ou trabalhar em idade escolar, já não vai dormir com fome, frequenta a escola pública, tem SNS e vacinas gratuitas num país que desde então baixou em 94% a taxa de mortalidade infantil até aos 5 anos, tem transportes públicos e infra-estruturas que mudaram a face do país, tem um salário mínimo e direitos laborais, pode e deve sindicalizar-se, terá apoio no desemprego, terá uma reforma na velhice.
Em todas estas áreas, há muito Abril para continuar, enraizar, abrir. Mas o Estado democrático «na construção de um país mais livre, mais justo e mais fraterno» não tem falhado na criação dos instrumentos dessa liberdade, a liberdade de viver e decidir, rompendo não só com o aparelho repressivo da ditadura como com as pavorosas desigualdades de classe que se perpetuavam no nosso país, onde ainda hoje temos e teremos muito para caminhar. Mas já sabemos que o filho do operário caminha connosco e nós com ele. O filho do operário somos nós.
Viva o 25 de Abril!
[imagem: 'As Armas e o Povo', 1975]

