A nossa hora mais decisiva
17 Mar 2020
A nossa hora mais decisiva

Entre 1940 e 1941, numa das fases mais negras da história da Humanidade e com a Europa a cair como um castelo de cartas perante a máquina de guerra nazi-fascista, o Reino Unido resistiu como uma das poucas luz da civilização então intermitente. As cidades britânicas foram atacadas impiedosamente pela Luftwaffe, em especial Londres.

Durante o "blitz", os bombardeiros alemães - às centenas - voavam quase sem oposição e despejaram toneladas de bombas incendiárias e explosivas. Fizeram-no consecutivamente durante horas a fio, dia após dia, noite após noite, entre os meses de Setembro de 1940 e Maio de 1941. Foi tudo indescritível: o número de mortos, a destruição apocalíptica, a carestia, o pavor.

Mas os alemães nunca conseguiram quebrar o espírito de luta dos britânicos e em especial dos londrinos, mais massacrados pela campanha aérea, que resistiram de uma forma disruptiva: mantendo a normalidade possível. Protegendo-se da morte, mas cuidando dos vivos. Mantendo a força de trabalho, as pequenas e grandes rotinas, os empregos, as famílias, o lazer que nunca deixaram inteiramente. Keep calm and carry on.

Hoje o mundo moderno enfrenta uma ameaça cujos contornos ainda ninguém consegue percepcionar com inteira clareza, mas já todos nos consciencializamos sobre aquilo que enfrentamos. Um inimigo invisível mas muito poderoso que jamais pensamos ser possível no mundo globalizado, aberto e livre, em que crescemos e vivemos. Mas ele aí está.

Este inimigo impõe-nos um estado de excepção que é equiparável a uma guerra na saúde e na economia. E, como em todas as guerras, precisamos de cuidar de quem precisa nas linhas avançadas dos hospitais, mas temos de nos preparar também para resistir durante um período cuja duração, para já, desconhecemos.

Neste combate, precisamos de não ceder ao pânico e ao medo. Cumprir todas as regras sanitárias, manter princípios de isolamento e distanciamento social, cortar as cadeias de transmissão, mas sem abdicar daquilo que nos faz como sociedade e como humanos. Temos de manter a nossa identidade comunitária e a normalidade possível, desde o ensino partilhado com os nossos filhos até à sobrevivência das empresas, serviços e instituições, que temos de continuar a assegurar com o fruto do nosso trabalho e dedicação.

É absolutamente decisivo que, ao mesmo tempo que atacamos a emergência sanitária, acudindo quem precisa e velando quem parta, mantenhamos também o maior número de postos de trabalho, fornecimentos e cadeias de distribuição. Porque só assim, depois desta guerra, poderemos vencer a paz.

E se ela hoje nos parece distante, então encontremos a melhor das inspirações naqueles que em 1940, na hora mais negra, nunca deixaram que a civilização se apagasse no quotidiano de cada um dos seus dias tão difíceis.

Sim, nós também venceremos.

(foto: londrino durante o Blitz)