24 Abr 2021
O dia inicial
Por esta hora, há 47 anos, “E Depois do Adeus” de Paulo de Carvalho já tinha passado nos Emissores Associados de Lisboa e isso marcava o início das operações militares para derrubar a ditadura.
Seremos eternamente devedores aos jovens capitães que arriscaram tudo para libertar Portugal e, depois, ao povo que abraçou a Revolução nas primeiras horas de um novo dia, de um novo tempo, tornando-o num irreversível processo de transformação radical e democrática do nosso país.
 
O 25 de Abril é o dia mais bonito do ano. Ano após ano, vendo, revendo e ouvindo o que já é conhecido de outros anos, é impossível não me comover. A pandemia limita pelo segundo ano consecutivo as celebrações, mas não impede que cada um possa e deva comemorar, lembrar e partilhar os valores fundacionais de Abril.
 
À medida que se vai diluindo a memória de quem viveu a ditadura, isto é cada vez mais necessário. Por nós e por quem virá depois de nós.
 
O 25 de Abril de 1974 pôs fim a 48 anos de terror. Quando o velho “Estado Novo” caiu, Portugal era um dos países mais pobres do mundo. Estávamos no mapa da fome da ONU. Não havia Estado Social, nem SNS, nem Escola para todos, nem infra-estruturas básicas para a maioria da população. Não havia direitos laborais, salário mínimo, subsídio de Natal ou férias pagas. A mortalidade infantil era pavorosa e diminuiu 94% desde a década de 1970 até aos nossos dias. O analfabetismo era a norma. O ensino, e em especial o ensino superior, estava circunscrito às elites. O divórcio estava proibido, o planeamento familiar era inexistente e as mulheres eram tuteladas pelos maridos, numa sociedade patriarcal e machista. A guerra colonial durava há 13 anos e deixava um lastro de milhares de mortos e feridos. Em apenas uma década, mais de 1 milhão de compatriotas tinham fugido do país à procura de melhores condições de vida, vivendo muitos deles em bairros de lata nos arredores de Paris. Havia a polícia política, a censura, as prisões políticas, o “campo da morte lenta”, a corrupção endémica das elites do salazarismo e as famílias protegidas do regime, a ausência de liberdades políticas, cívicas, culturais e de imprensa.
 
Este país sem futuro, a preto e branco, cavado na tristeza, acabou a 25 de Abril de 1974. Para esse dia contribuíram os jovens capitães e todos os que resistiram à ditadura durante a “longa noite”, em particular comunistas (os mais organizados e com resistência clandestina durante toda a ditadura), socialistas, grupos de extrema-esquerda (sobretudo nos anos finais do marcelismo), velhos republicanos e, de uma forma geral, oposicionistas do amplo campo democrático que pagaram a sua ousadia com prisão, perseguição, exílio, miséria ou morte.
 
Tudo isto temos de lembrar.
 
Por tudo isto, hoje e sempre, temos também de agradecer.
 
Viva o 25 de Abril!
 
[foto: 25 de Abril de 1974, Jean-Claude Francolon; podem ser vistas aqui mais fotos a cores deste dia]