O Miguel Carvalho não é historiador, mas em «Quando Portugal Ardeu», que acabei agora de ler, escreveu uma belíssima obra de história. O livro está exemplarmente bem escrito e documentado, incluindo várias entrevistas originais que permitem acompanhar uma espécie de “lado B” do PREC.
Contrariando as narrativas da “deriva esquerdista”, o Miguel Carvalho demonstra o papel da rede bombista de extrema-direita na desestabilização do país, nos atentados, roubos e assassinatos, mas sobretudo o pano de fundo de quem a apoiou, protegeu e financiou: uma parte relevante da hierarquia da igreja (em particular o cónego Melo), industriais, empresários, polícias, magistrados e militares (incluindo Pires Veloso, que liderou a região militar do Norte), estabelecendo ligações sólidas aos partidos então emergentes (em especial, mas não exclusivamente, ao CDS), os conluios judiciais e militares, o revanchismo dos protegidos da ditadura, o aconchego da ditadura franquista, os mercenários que vieram engrossar a “contra-revolução”, os opositores à independência das ex-colónias que traficaram armas e muito mais, as ligações à CIA e a outros serviços secretos, bem como as influências da “internacional fascista”.
Todos os responsáveis conhecidos se safaram num manto de impunidade e os desconhecidos, que não são assim tão desconhecidos, nunca foram acusados embora tenham tentado apagar todos os vestígios (como o assassinato de Ferreira Torres, um dos responsáveis do MDLP e financiador do terrorismo de direita).
Recomendo vivamente esta obra a todos, mas em particular aos meus amigos historiadores que podem desdobrar o impacto do livro colocando-o na bibliografia fundamental deste período da nossa história recente.