A história da história da crise
14 Abr 2014

Esta semana mostrou até ao osso como os liberais conseguiram difundir ideias tão simples quanto falsas sobre as origens da nossa crise. Invariavelmente, a história começa assim: há uns anos, não muitos, os socialistas governaram o país. Ah, foi um banzé desgraçado. Estouraram dinheiro a rodos e a dívida subiu. Pronto.

(O facto de terem conseguido o défice mais baixo da história portuguesa não conta. Nem a crise das dívidas soberanas. Nem o estouro financeiro internacional. Nem os investimentos para superar os verdadeiros atrasos estruturais do país: educação, qualificações, tecnologia. Psst).

Depois deste período negro vieram homens hirtos como espetos de virar tripa e lançaram metáforas tão perceptíveis como 'arrumar a casa', 'limpar a festa socialista', 'fazer os trabalhos de casa', 'honrar os compromissos' (só com os credores, não com os pensionistas, que são muito velhos e démodé), ajudados por uns senhores aprumados com umas malas insondáveis, os da troika, que foram globalmente saudados porque vinham meter a choldra na ordem e limpar isto. Isto, os coisos e assim.

Então, até hoje, a crise infinita foi combatida com as «reformas estruturais» que estavam a ser implementadas e que iriam produzir resultados, baixando os juros da dívida. Não, nós não éramos nenhum desses países pouco cumpridores. Não, a Espanha e Itália não se iam safar sem o abanão do ajustamento. E por isso os senhores que pagaram a conta da festa socialista tinham de agir assim.

Três anos depois, eles somaram crise à crise. Nós sabemos quais são as únicas reformas estruturais que vão ficar cravadas por muitos anos: a desvalorização do factor trabalho, a baixa generalizada dos rendimentos, a extorsão fiscal, a venda apressada de bens públicos que poderiam gerar dividendos e regular. Estamos exauridos, pobres e em piores condições de enfrentar o futuro.

E os juros, não baixaram?

Baixaram. Baixaram em Portugal e em todos os países mais fustigados pela crise financeira. Todos os países em dificuldades, com ou sem as (contra-)reformas que violentaram Portugal, baixaram os juros da dívida. Mais: a dívida de Espanha, sem troika  e sem ajustamento, transaccionou em juros mais baixos do que a dívida dos EUA, a caixa-forte do mundo. E a Alemanha viu os seus aumentar.

Tudo isto acontece porque é de política que falamos. Neste caso, de política monetária, que corresponde a uma determinação política sobre a nossa vida colectiva. Dito de outra forma: sem troika, sem as privatizações, sem a brutalidade da emigração, do desemprego e da pobreza, os nossos juros estariam hoje a baixar.

Sucede que as acções do Governo português foram inúteis para esse efeito mas não para o programa que a direita sempre quis implementar em Portugal. Três anos depois, esta é a história da história da crise e do embuste em que nos meteram.

Mas há sempre quem esteja disponível para acreditar numa outra explicação tão mais desejável, tão mais compreensível e tão absolutamente errada.

Artigo publicado no jornal «Público»