O lugar da política é a tomada de opções.
16 Jun 2016

O Secretário-Geral do PS, mandatado pelos órgãos nacionais, encetou uma transformação do sistema partidário português que esteve imutável durante quatro décadas.

O ponto de partida é simples: a direita teve o seu segundo pior resultado de sempre, pelo que o voto centrista está concentrado no PS (em linha com o programa que apresentou), perdendo contudo muito eleitorado para a sua esquerda. O PS percebeu-o e a abertura de negociações à esquerda, só por si, é uma novidade refundadora da nossa democracia e confere-lhe maior amplitude e pluralidade.

Esta é uma opção que se baseia na clareza e na identificação de alguns pressupostos: acabar com um arco da governação fechado apenas ao PS e aos partidos à sua direita, mas recusar também, como sempre foi dito na campanha eleitoral, um entendimento com esta direita. A razão é simples. Ao longo dos últimos quatro anos, PSD e CDS implementaram uma revolução liberal em Portugal com consequências devastadoras para o país. Não nos distingue uma diferença de grau, mas de natureza (plafonamento da Segurança Social, destruição do Estado Social, política de rendimentos, política fiscal, cheque-ensino, SNS dualizado, etc). O PS disse-o, combateu-o e não capitula.

Mas então, quais as opções?

Num quadro em que 50,7% de votos traduzidos em mandatos parlamentares rejeitaram claramente o rumo seguido até aqui, o PS poderia tentar dar-lhes expressão parlamentar ou sustentar um Governo de direita. É hoje conhecida a opção maioritária no PS, mas podemos conjeturar sobre a alternativa. O apoio a um Governo minoritário de direita poderia ser feito de duas formas:

1) integração do PS num Governo de PSD/CDS; ou

2) apoiar apenas parlamentarmente esse Governo.

A primeira opção, creio, sempre esteve fora de causa até para quem não concorda com o rumo seguido: os seus custos políticos implicariam o esgotamento do PS como partido de alternativa democrática. Restaria a opção do apoio parlamentar. Ora, tal apenas se poderia traduzir com abstenções ou voto favorável após tentativas de influenciar a governação. Não é difícil de antecipar o que se passaria: durante alguns meses, no limite toda a legislatura, o PS seria o partido da demissão da vida política, encetando um contínuo de abstenções sem qualquer capacidade de mobilização da sociedade portuguesa e sob fogo cerrado, legítimo, dos partidos mais à esquerda. Por outro lado, qualquer tentativa de condicionamento do âmago das políticas seguidas pela direita implicaria, mais cedo do que tarde, a demissão do Governo e vitimização eleitoral.

Este cenário de uma diluição e trituramento eleitoral do PS seria um suicídio. O PS perderia força política e social. Perante a definição de uma estratégia e de um caminho, convém perceber com clareza quais as alternativas que se convocam. Independentemente do seu desfecho, a recusa do diálogo com a esquerda – revolucionário na nossa história, reformista na sua essência – implicaria um PS atávico, conformado e incapaz de mobilizar o país.

Eis porque o lugar da política é a tomada de opções, incluindo as razões para a recusa de outras opções sempre passíveis de serem tomadas.

 

Artigo publicado no «Acção Socialista»