Triunfar sobre a incerteza
02 Jun 2020

1. A pandemia provocada pelo novo coronavírus provocou um choque sem precedentes no tempo das nossas vidas. O Grande Confinamento atingiu todo o mundo e, para além da crise sanitária com que ainda nos confrontamos, já provocou uma das maiores crises económicas das últimas décadas. Com cadeias globais interrompidas, empresas paralisadas e milhões de trabalhadores em casa, a crise será dura e prolongada. Perante a dimensão do que enfrentamos, tudo é superior na escala, na intensidade e nas consequências: económicas e financeiras, mas também sociais e culturais. É neste contexto que o futebol foi duramente atingido em várias dimensões que devem merecer a nossa reflexão. Faço-o, a convite do jornal Record, sob a perspectiva do meu clube: o Futebol Clube do Porto (FCP).

2. O FCP é um clube atípico no nosso país. Longe do conforto dos poderes do centralismo, tudo é mais difícil. É assim no desporto e em todas as áreas. É preciso trabalhar mais e melhor para se atingir os mesmos objectivos. E o FCP assim fez. Tinha muito para falhar, mas conseguiu derrotar todas as certezas. Afirmou-se como um clube hegemónico em Portugal e com múltiplas conquistas internacionais sem nunca negar, antes explorar, o caldo identitário da Região que o viu nascer e nela esculpir as suas forças. O FCP é a expressão mundial dessa Região e isso em nada o diminui como clube de vocação nacional, reconhecido internacionalmente. Pelo contrário: qualquer tentativa de o afastar desses valores, tornando-o num produto indistinto de futebol-negócio é condená-lo ao fracasso. Esta é a primeira convicção: o futebol moderno não pode ser a expressão anódina de uma paixão. Como diz a «Marcha», nós «somos Portistas / e sempre bairristas». A emoção sente-se em qualquer lado, de Norte a Sul, em Portugal e fora dele, mas o FCP, tal como outros clubes com percursos semelhantes noutras ligas, não é alheio à identidade da Região onde se forjou, historicamente prejudicada pela ditadura, primeiro, e pelas assimetrias do centralismo, depois. Esse percurso não pode ser escolhido nem apagado. Resulta das condições concretas em que o FCP se transformou no clube que é hoje, miscigenando esses valores na massa adepta do clube e dando-lhe a cultura de superação, luta e combatividade – a mística – que a tantos seduz.

3. Esse percurso é indissociável de um homem, Jorge Nuno Pinto da Costa, e de uma história que, como sabemos, muda consideravelmente após o 25 de Abril de 1974. Pinto da Costa foi eleito presidente do FCP em 1982, mas já antes lançara as sementes de uma revolução no clube e no futebol português quando assumira as funções de director do departamento de futebol em 1976 sob a liderança de Américo de Sá. Com José Maria Pedroto, o «mestre», pavimentou um projecto de sucesso desportivo e doutrinário que construiu a ambição ganhadora do clube a partir da adversidade. E nada ficou como dantes. Há uma frase lapidar de Pedroto: «Quando o autocarro do FCP atravessa a Ponte Arrábida, já vai a perder por 1-0». Assim era, mas deixou de ser. O FCP empunhou a bandeira da luta contra as injustiças históricas que, herdadas da ditadura, contaminaram os poderes dominantes do futebol português durante longos anos. Disso foi símbolo Calabote, nos anos negros da ditadura, mas também a outorga da presidência da FPF a um clube de Lisboa antes de 1974. Tudo estava feito para que um clube como o Porto fosse uma nota de rodapé. Porém, o primeiro campeonato conquistado em 1978 após 19 anos de jejum e o primeiro bicampeonato desde 1940, no ano seguinte, foram os sinais de que as ondas de mudança do 25 de Abril tinham chegado ao futebol. Não é possível perceber o presente sem uma noção muito clara deste passado nunca distante.

4. Ao longo dos últimos 46 anos, e em especial durante os 38 anos de mandatos de Pinto da Costa, nenhum clube foi tão bem-sucedido como o FCP. Desde 1982 foram 21 campeonatos, incluindo um pentacampeonato, 12 Taças de Portugal e 20 Supertaças. Internacionalmente, o gigante adormecido acordou e sagrou-se campeão da Europa e do mundo em 1987, ganhou a Supertaça Europeia em 1988 e, já no século XXI, uma Taça UEFA, uma Liga dos Campeões, uma Taça Intercontinental e uma Liga Europa. O clube encontrou fórmulas vencedoras em cada uma das últimas quatro décadas, acompanhando dessa forma a transformação do futebol mundial e do seu modelo de gestão, mas também inovações de treino, contratações, vendas e formação. A sua hegemonia alargou-se às modalidades, com destaque nacional e internacional para o hóquei em patins, o andebol, o basquetebol, o atletismo e a natação, entre muitas outras. A revolução estendeu-se às infraestruturas, construindo o estádio, o pavilhão, o centro de treinos e o museu de última geração. E foi conquistando adeptos em todo o país e fora dele, sem nunca deixar de ser um clube que empunha os valores da Invicta. Nos anos mais recentes, a disputa com o principal rival, ainda muito longe de reposicionar os ganhos do FCP durante anos a fio, tornou-se mais equilibrada. Mas não ignoramos que há muitos processos judiciais cujo desfecho aguardamos, perspectivando, do que já se sabe, uma poderosa estratégia de dominação por parte desse rival dentro e fora do campo.

5. Os impactos da pandemia do novo coronavírus apanham o futebol português numa fase de progressiva perda de competitividade perante outras ligas. Com raras excepções, temos estádios praticamente vazios para além dos jogos dos três principais clubes, pouca competitividade internacional (o FCP surge destacado desde a criação do actual formato da Champions em 1992, mas o futebol português tem vindo a perder lugares para outras ligas), jogos a horas proibitivas, ausência de uma política de valorização de activos de transmissão a nível internacional (nomeadamente na CPLP), falta de oportunidades para jovens jogadores, entre outros problemas

6. E então, qual o caminho a seguir? Não há certamente uma única via. Os clubes dependem da competitividade uns dos outros e por isso há entendimentos que devem ser estabelecidos de forma transparente entre todos os agentes do futebol para superar esta fase, sem aproveitamentos particulares. No que diz respeito ao FCP, entendo que tem de prosseguir com uma sólida estratégia de formação, substituindo paulatinamente o tempo em que a valorosa rede de olheiros do clube encontrava diamantes em bruto na América Latina. O modelo de comprar barato e vender caro está gasto: há cada vez mais clubes europeus a trabalhar aí, com um músculo financeiro incomparável, pelo que temos de acarinhar a nossa «cantera» com infra-estruturação adequada a uma academia. O FCP deverá também privilegiar a sua vasta malha de adeptos em Portugal e nas diásporas, mas também com portistas de outras nacionalidades, para mapear novas Casas e transformá-las em embaixadas do clube. O mesmo deve ser feito na potenciação da rede «dragon force». Explorando novas possibilidades tecnológicas, o FCP deve fortalecer a liderança que já detém, destacado, entre os clubes com mais seguidores e interacções nas redes sociais. Isto é um valiosíssimo activo que deve ser monetarizado e integrado com novas possibilidades tecnológicas – na app, no streaming, no Porto Canal, nas experiências e conteúdos do FCP – para os sócios, acesso aos jogos, bilhetes, merchandising e partilha colaborativa entre adeptos.

7. Isto tem de ser feito sem esquecer que o objectivo do clube é vencer, ou seja, ser desportivamente competitivo para ser financeiramente competente. Qualquer estratégia parcelar neste campo está condenada ao fracasso. E nenhuma será vitoriosa se o FCP abdicar de ser uma potência cívica e social do Norte. Num período de contracção, acrescido das dificuldades de quem está longe dos centros de poder, as forças vivas da Região devem unir-se no apoio ao clube. É importante encontrar parcerias virtuosas com as maiores empresas da Região, um dos braços industriais do país com uma economia dinâmica e resiliente em muitas áreas, patrocinando o FCP como um dos maiores símbolos – e dos mais bem-sucedidos – da vasta geografia onde se insere.

8. É na síntese de tudo isto que o FC Porto manterá o rumo do sucesso nos tempos exigentes que vivemos. Eles não são mais difíceis do que outros que já superámos. Liderança, em primeiro lugar. Mas também consciência do seu papel social. Respeito pela sua história e pelos seus valores. Afirmação inequívoca da sua identidade. Combate a todas as tentativas de controlo do sistema de futebol. Investimento e oportunidades aos jovens valores da nossa formação. Valorização de activos, a começar pela força dos adeptos em Portugal e em todo o mundo. Reforço contínuo das infraestruturas. Monetarização e digitalização da marca, abrindo-se a novas possibilidades. Trabalho em rede a partir da cidade do Porto e da Região Norte. Prosseguindo este caminho, estou certo de que o FC Porto inicia uma nova década em que vai derrotar as dificuldades, dando continuidade a algumas das mais gloriosas páginas do desporto em Portugal.

 

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